"Livros deveriam ser de graça"

Vi esta frase em um post do We Heart It, site para imagens fofas. Fiquei indignada. Para os leitores, óbvio, livros de graça seriam uma bênção dos céus. Mas e para o outro lado da linha de produção literária? Para nós, escritores, livros de graça seriam a falência eterna. Não que eu concorde com o preço atual dos livros. Deixe-me explicar.

Vivemos em uma sociedade em que praticamente nada é de graça. Porque há sempre muitas pessoas a serem sustentadas que colaboram com cada etapa da produção de algum bem ou realização de algum serviço. Mas o grande vilão de tudo no Brasil, o imposto, não é cobrado em material nenhum para a produção do livro. Nem para a importação de livros. Mas, o principal motivo pelo qual eu não publiquei meu livro por uma proposta tentadora foi que, sendo impresso em Portugal, ele chegaria aqui com um preço absurdo. Mas a importação não era sem impostos? E adiantaria discutir com alguma dessas livrarias gigantes por aí? (Ah, os livros no Brasil são livres de impostos, mas não ficam livres de outra vilã: a inflação. Foi ela a grande responsável pela alta no preço dos livros no ano passado).

Não é de hoje que os livros são caros no Brasil: conforme aponta esse artigo da Revista Superinteressante, publicado em 1995, um dos principais motivos pelo alto preço dos livros no Brasil são as pequenas tiragens, que fazem com que o preço de cada livro seja maior que com uma grande tiragem. Os best-sellers estrangeiros, por outro lado, saem com grandes tiragens, pois seu sucesso é certo, o que faz com que o preço final deles seja mais baixo, o que prejudica novamente o autor nacional.

O Brasil até tem uma quantidade grande de livros circulando, mas poucas livrarias. Quase todo mundo já ouviu a conversa de que só em Buenos Aires há mais livrarias que em todo nosso país (e é verdade). E é aí que mora outro problema: as editoras menores e os autores independentes precisam deixar que a livraria coloque uma porcentagem sobre o livro apenas para deixá-lo em exposição, nem que faça isso em um cantinho escondido. Essa porcentagem pode chegar até a metade do preço final do livro!
Livraria Ateneo, em Buenos Aires
E como fica aquela pessoa que perde o sono, que sofre mandando originais para as editoras, que recebe vários “nãos” ao longo da vida, mas que é fundamental para a própria existência do livro? Bem, o escritor, por mais absurdo que pareça, fica com uma pequena porcentagem das vendas, algo em torno de 10%. E não recebe todo mês: na maioria das editoras, o acerto de contas é feito a cada seis meses ou anualmente. Por mais que as máquinas responsáveis por imprimir um livro sejam caras, sem o autor elas não funcionariam. Ninguém na indústria do livro teria trabalho sem o autor. E, no Brasil, são pouquíssimos os que conseguem viver de literatura. Enquanto no exterior vários escritores são admirados, no Brasil, quando você fala que é escritor, recebe de volta a pergunta: “OK, mas você trabalha com o quê? Ou você não trabalha?”.

Qual a consequência do preço salgado dos livros? Cada vez menos gente os compra. Os pais não compram livros de 30 reais para as crianças. Os jovens preferem gastar mais de 100 reais para ver um show na pista apertada ou pular carnaval ao invés de comprar livros com o mesmo dinheiro (o que lhe proporcionaria uma experiência muito mais duradoura). Muitos optam por tirar Xerox do livro pedido pela escola ou mesmo, na nossa modernidade tecnológica, baixar os livros em sites de pirataria (e conheço gente que justificou esse ato dizendo que gastar com livros era uma “perca” de dinheiro). Lembre-se de que um livro só entra em domínio público 70 anos após a morte de seu autor!  

Prova de que a situação é complicada é que, em 2013, foi proposta uma ideia para o Senado para baixar o preço dos livros. Embora o autor da proposta tenha se referido erroneamente aos “impostos” cobrados sobre o livro, a iniciativa dela não pôde ser levada adiante porque NÃO TEVE APOIADORES SUFICIENTES.


Os livros jamais deveriam ser de graça. Eles deveriam, sim, ser acessíveis. Desta maneira, com uma redução justa, mas que ainda beneficiasse todos os envolvidos na criação, impressão, distribuição e comercialização, ninguém sairia perdendo. Sem contar o fato de que são as grandes promoções e as bancas a preços baixos que atraem a maioria leitores, e inclusive incentivadores de outros leitores. A cultura, impressa ou não, precisa ser mais difundida e, para isso, deve ser, repito, acessível.

Comentários

  1. Letícia adorei o texto, ótimo para refletir um pouco. Concordo com vc!!! Também acho que os livros não devem ser de graça, mas a um preço mais acessíveis. Por isso quando não estou com dinheiro para comprar pego emprestado com alguém ou em bibliotecas, os compro o ebook no Amazon pq tem ótimos preços. Então se eu gostar da leitura coloco na lista de próximas compras.
    Desejo que essa realidade melhore e que a leitura seja mais valorizada.
    Bjos e ótima semana querida!!!

    Leituras, vida e paixões!!!!

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  2. "Eles deveriam, sim, ser acessíveis. Desta maneira, com uma redução justa, mas que ainda beneficiasse todos os envolvidos na criação, impressão, distribuição e comercialização, ninguém sairia perdendo. Sem contar o fato de que são as grandes promoções e as bancas a preços baixos que atraem a maioria leitores, e inclusive incentivadores de outros leitores. "

    Concordo! Mesmo em Portugal, há preços que são um autêntico roubo :/

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  3. Concordo em número, gênero e grau. Livros deveriam ser de graça por motivos de: é um bem imenso para sociedade! Caraca, existem as bibliotecas, mas a maioria tem um acervo bem desinteressante e desatualizado, assim não dá -_-.

    http://memorias-de-leitura.blogspot.com/

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  4. Nunca tinha pensado na questão da tiragem, sempre ficava meio revoltada com os preços de alguns nacionais, sendo que dá para encontrar vários internacionais por 20 reais ou menos.

    A frase livros deveriam ser de graça é completamente absurda, afinal escrever um livro é um trabalho e, como qualquer outro, deve ser remunerado. Mas em todo caso, existem bibliotecas, né?
    Como sempre digo, não lê quem não quer.


    Gostei bastante da temática da postagem :D

    Beijinhos
    http://www.interacaoliteraria.com/

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  5. Gostei muito do seu ponto de vista! eu tbm não tinha pensado sobre a tiragem. Geralmente ficava pensando que os livros eram extremamente caros e as vezes ficava até com raiva xD Mas o escritor precisa ser remunerado pelo trabalho dele, afinal escrever é complicado e leva tempo.
    Gostei muito mesmo do post! parabéns!

    Beijos!

    http://bettinablanco.blogspot.com.br/

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  6. Letícia, dentro da lógica de mercado, vc está certíssima, claro. Mas essa lógica data do século XVIII, qdo surgiu tb o direito de autor. O direito autoral transferiu o financiamento artístico das mãos do mecenato renascentista para as do mercado, com grave consequência para a qualidade geral das obras produzidas dentro dessa lógica. Mas nada impediria q o próprio Estado patrocinasse os autores, adquirindo todas as suas obras e distribuindo-as gratuitamente aos leitores. É essa a ideia q eu defendo. Toda obra de arte deveria ser de graça, sim.

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  7. Acho ótima a ideia dos livros serem gratuitos. Desde que me paguem bem para escreve-los.

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  8. Lê, ao ler seu texto lembrei do livro A Arte de Pensar, do Schopenhauer, em um capítulo que ele fala sobre a questão dos escritores que já escrevem pensando no lucro. Concordo com seu posicionamento de que os livros não devem ser de graça, afinal, tem todo um processo de produção e edição do livro que devem ser considerados. Mas será que esse lucro é melhor que a divulgação do conceito do livro? Acho que não. Sobre essa questão do direito autoral realmente é algo a se pensar, já que houve uma mudança muito grande na Comunicação e no início da comunicação na internet não se pensava em direitos autorais, então é difícil promover a ideia dos direitos autorais em um ambiente com um enorme fluxo de informações.

    Gostei muito do seu blog, depois vou ler alguns posts do Crítica Retrô =)
    Abraço.
    Meu Filme virou Livro

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  9. Adorei seu post, flor. Vim retribuir o carinho da sua visita ao meu blog e encontrei um artigo de opinião com admirável fundamentação. Eu trabalho no setor editorial e sei quantos profissionais estão envolvidos para que o livro chegue às mãos dos leitores. O autor escreve, mas há uma equipe de editores que avaliam a viabilidade da publicação em relação ao mercado editorial. Depois de aprovado, há revisores, copidesques, diagramadores, equipe gráfica, equipe de marketing (isso sem mencionar a equipe responsável pela compra dos materiais)… Todos envolvidos na confecção da obra. O livro é livre de impostos? Sim. Mas os salários destes profissionais não. O valor a ser pago para a empresa que o confecciona, não. O valor a ser pago para as livrarias, não. Para a equipe de vendas, não. Gente, é um mundo por detrás dos livros.
    Adorei seu post. O livro não deveria ser de graça, mas acessível.
    Já estou seguindo e curtindo seu blog! *3*
    Beijos, flor!

    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  10. Concordo.
    Como leitora, gostaria que os livros tivessem preços mais baixos, mas como escritora, não concordo que eles sejam de graça, afinal existem custos para impressão, diagramação, etc. A alternativa é fugir um pouco para os e-books, apesar de que alguns títulos tem o mesmo preço para o impresso e o e-book, o que é muito triste =(

    http://lumartinho.blogspot.com.br

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