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Resenha: Sobre Minha Filha, de Kim Hye-jin

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  Machado de Assis nos ensinou que nem todo narrador é confiável. Kim Hye-jin, em “Sobre Minha Filha”, mostra que nem todo narrador é simpático. Ao longo de 140 páginas acompanhamos os pensamentos de uma mulher, cuidadora de idosos e mãe de uma moça de 30 e poucos anos cujo apelido é Green. Green é homossexual e acaba de se mudar de volta para a casa da mãe com a namorada, apelidada de Rain. A mãe, entretanto, não aceita a sexualidade da filha e deseja mais do que tudo que essa “fase” passe e a filha possa levar uma vida “normal”. Para completar o desgosto da narradora, Green tem um emprego que não agrada à matriarca: é professora horista numa universidade. Pensa que acabou? Não: Green está lutando contra uma injustiça em seu local de trabalho - a demissão de um funcionário homossexual - e a narradora não suporta ver a filha que criou com tanto esmero militando pelo que é certo! A narradora cuida de apenas uma idosa numa clínica de repouso: Zen, que já foi dinâmica, viajou, e...

Papel & Película: Como Água para Chocolate, o livro, o filme, a série

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  *A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito* Tita de la Garza ama Pedro Múzquiz e é correspondida. O que os impede de ficarem juntos é a tradição: como filha mais nova, Tita tem o dever de permanecer solteira e ficar ao lado da mãe, Elena, até a morte. Pedro então se casa com a irmã de Tita, Rosaura, mas o amor não arrefece. Essa história de amor proibido em meio à Revolução Mexicana (1910-1917) foi cozida na mente de Laura Esquivel e primeiro servida em 1989, fazendo de cara imenso sucesso. O livro Incluído na lista do jornal El País dos 100 Melhores Romances em Língua Espanhola do Século XX, o livro é composto de doze capítulos, cada um representando uma receita e um mês do ano - mas não se engane, não é uma história que se desenrola durante apenas um ano, mas sim em ...

Papel & Película: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector a Suzana Amaral

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  *A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito* À primeira vista, parecia um livro impossível de se adaptar para o cinema. E isso principalmente pela existência de um narrador não onisciente, mas onipresente, denominado Rodrigo S. M. A presença do narrador foi uma das surpresas que tive lendo o livro, afinal, ele faz algo que nem pode ser chamado de digressão - pois ainda não havia começado a narrar - no início do livro. A outra surpresa foi descobrir como é fina “A Hora da Estrela”: pouco mais de cem páginas! Mas, nelas, um mundo inteiro. Macabéa era a moça que acordava e se situava assim: “sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola”. É um livro rico em passagens que valem ser destacadas, mas o que eu gostaria de chamar atenção foi que li uma edição de 1980 e a capa trazia ...

Papel & Película: O Mistério dos Sete Relógios, de Agatha Christie à Netflix

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  *A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual e também filmes sobre livros. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito* Publicado em 1929, “O Mistério dos Sete Relógios” não é a melhor obra de Agatha Christie, como pude constatar lendo o livro. Falta a presença magnética e carismática de um Poirot ou uma Miss Marple. Assim como outros romances de espionagem da autora, não chega à altura de seus romances de mistério ou “whodunit”. Não foi uma leitura que me marcou, embora Christie mais uma vez tenha me surpreendido. Fui também sem esperar muito da minissérie, vista de antemão e muito criticada pela minha mãe, rata de Netflix  e também expert em IA, pois foi ela que montou a foto que abre este post. Mas fui de peito e mente abertos. E me decepcionei. Em 1925, na propriedade de Chimneys, uma pegadinha dá errado - muit...

Leitura na Folia: seis livros sobre Carnaval

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  A maior festa popular do mundo, o Maior Espetáculo da Terra. Ele chegou de novo: o Carnaval. Não importa se você prefere descansar em casa ou se esbaldar nos bloquinhos: o Carnaval pode até dividir opiniões, mas mexe com todos nós. O Carnaval foi assunto de cinema, e o cinema assunto de Carnaval. O primeiro filme, do que se tem notícia, dirigido por uma mulher no Brasil se passa no Carnaval: “O Mistério do Dominó Preto”, feito por Cléo de Verberena em 1931. Aqui, não se trata do dominó jogo, mas sim do Dominó personagem carnavalesco hoje esquecido. Infelizmente, o filme se perdeu com o tempo, mas tem seu lugar na História do nosso cinema. Eu não sei vocês, mas eu gosto de assistir aos desfiles das escolas de samba. E foi vendo um desses desfiles que tive a ideia de fazer um post em meu blog de cinema sobre como o cinema pode ser homenageado nos desfiles. O ano em questão era 2011 e o breve post tratou do cinema sendo homenageado por duas escolas de samba do Rio de Janeiro. E...

A historiadora por trás de “Anos de Chumbo”

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Estou aqui há tanto tempo que me esqueci de uma coisa fundamental: esqueci de me apresentar. Bora conhecer melhor a menina que se autodenominava “quase-escritora” e hoje já publicou seis livros? Talvez você já saiba que meu nome é Letícia Magalhães. Mas talvez você não saiba que sou historiadora. Essa é minha trajetória, com todos os seus altos e baixos. Sempre fui nerd, mas na minha matéria favorita me superei. Mantive a nota 10 em História durante os quatro últimos anos do Ensino Fundamental, quando era ensinada por meu segundo professor favorito de todos os tempos - a primeira professora favorita de todos os tempos é minha mamãe - , e os três anos do Ensino Médio, durante o qual em sua totalidade estufava o peito para declarar orgulhosa que faria faculdade de História. Seguindo os passos do já mencionado professor, fiz vestibular para a Unicamp. Passei em primeiro lugar no curso de História em 2011. Mas não fui fazer faculdade lá. Estava doente quando terminei o Ensino Médio...

Papel & Película: O Filho de Mil Homens

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    *A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual e também filmes sobre livros. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*   Há pouco mais de seis meses, tive a oportunidade de assistir ao documentário de média-metragem sobre Antonio Candido “O Avô na Sala de Estar”, feito, como o nome revela, por sua neta. Antes disso já havia visto e amado “Antonio Candido: Anotações Finais” . No mesmo salão, também assistindo ao média, estava o escritor Valter Hugo Mãe - para ser mais precisa, sentado bem à minha frente. Ao final da sessão, fez uma observação pertinente. E assim foi meu primeiro contato com Valter Hugo Mãe. Meu segundo contato com Valter Hugo Mãe foi vendo a gravação da palestra dele no Flipoços . Depois de dizer, como quem não quer nada nem mesmo se gabar, que lê um livro por dia, o escritor afirmou que quem n...