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Resenha: Cartas de Amor de Virginia Woolf e Vita Sackville-West

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  Quando foi que você recebeu sua última carta de amor? Se você alguma vez já recebeu uma carta de amor, deve ter sido há algum tempo e por isso pode reclamar que o romance está morrendo. A própria ação de escrever cartas é hoje algo romântico, “ainda que novidades sejam a última coisa que uma pessoa quer ou espera encontrar em cartas”, escreveu Vita Sackville-West justamente numa carta para Virginia Woolf. É sobre a correspondência destas duas literatas, além de entradas de diário, que trata o livro “Cartas de Amor”.   Em 1922 Vita Sackville-West era uma famosa escritora e socialite de 30 anos. Por outro lado, aos 40, Virginia Woolf ainda engatinhava na literatura. Um século depois, a posição se inverteu: quase todo mundo já ouviu falar de Virginia Woolf, e Vita saiu do cânone, sendo mais conhecida por sua vida amorosa.   Fascinação foi o sentimento mútuo no primeiro encontro, num jantar em finais de 1922. Dias depois de conhecê-la, Vita já diz para o marido “amo...

Resenha: Fundo, de Beatriz Aquino

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  Um livro que é como um mergulho: assim Beatriz Aquino, minha amiga, definiu seu “Fundo”, desejando na dedicatória “bom mergulho”. Ora, para todo bom leitor, não é todo livro um mergulho? Mas este é diferente: além de todas as metáforas aquáticas, tem uma narrativa que envolve e surpreende, como o próprio mar. Durante um bom tempo de leitura, convenci-me de que cada capítulo poderia ser lido como um conto, tão vastas eram as narrativas e vivências das mulheres protagonistas. Esqueci-me de que somos múltiplas, e podemos abrigar em nós vivências também múltiplas, mesmo sendo um indivíduo apenas. Foi depois de mais de quarenta páginas que me dei conta de que era uma narrativa não-linear cronologicamente, mas sobre uma só pessoa: a protagonista Ana.  Violentada pelo pai na infância e mandada para São Paulo logo depois, não para fugir do escândalo mas para fugir da fome, Ana seguiu a cartilha da vida: formou-se, passou um tempo estudando fora, flertou, namorou, casou, adquir...

Resenha: Depois que as luzes se apagam, de Tadeu Rodrigues

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  Pode uma história feita de clichês ser completamente original? Se estivermos falando do laureado romance de Tadeu Rodrigues, “Depois que as luzes se apagam”, a resposta será um sonoro SIM. Partindo de clichês nada baratos, ele conta a amizade entre um ancião e uma criança doente que nos arrebata, nos emociona, nos faz sonhar e por fim nos surpreende. Estevão tem oito anos. Nosso narrador, oitenta. O que une um ao outro é a finitude: Estevão é um menino doente, nosso narrador, apesar de aparentemente são, também está no fim da vida. Estevão é morador do terceiro andar do Edifício Fabuloso, onde nosso narrador também mora, num quartinho próprio para abrigar o porteiro do prédio. Em vez de ir à escola, Estevão perambula pelo prédio, até chegar ao quartinho do porteiro. Lá, nasce uma amizade nada improvável. Neste edifício de nome imponente a amizade se desenvolve na portaria e no saguão, culminando com a montagem de um circo de papelão. Com uma persona de palhaço que é “um tan...

Resenha: A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

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  Existem livros que entram na nossa vida e ficam na nossa lista de “próximas leituras” por muito tempo, até surgir a oportunidade perfeita. “A Redoma de Vidro” foi um desses livros. Ouvi falar através de amigas - que inclusive o têm como livros que mudaram a vida delas - e sempre quis lê-lo. O grande dia chegou, quando foi escolhido como livro do mês do clube de leitura Feito por Elas. Li-o, apreciei muito a prosa única de Sylvia Plath, e terminei-o num dia sugestivo: no segundo aniversário de minha tentativa de suicídio. Conhecemos Esther Greenwood quando ela está fazendo um estágio numa revista em Nova York. Nesta primeira metade do livro, suas interações com as outras meninas que moram no mesmo hotel que ela são o ponto alto da narrativa. É pelos olhos de Esther que conhecemos Doreen, Betsy, Hilda e outras que são só citadas. Mesmo em um meio glamouroso e excitante, Esther já demonstra certa apatia, bastante presente, por exemplo, em sua birra com filmes em Technicolor, que er...

Resenha: Morada das Lembranças, de Daniella Bauer

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Até pouco tempo, eu nunca havia participado de um book tour. Mas o primeiro book tour a gente nunca esquece, e este teve tudo para ser, realmente, inesquecível: muito bem organizado e com um livro maravilhoso para ser lido e resenhado por quinze mãos da blogosfera. A história de “Morada das Lembranças” é contada em primeira pessoa, misturando tons de reflexão, recordação e confissão. A nossa protagonista é uma menina que, aos sete anos de idade, após o assassinato do pai, precisa sair da Rússia revolucionária às pressas, acompanhada da mãe e do irmão bebê. Uma experiência sem dúvida traumática. O destino do trio é o Rio de Janeiro, onde mora a avó da protagonista, uma senhora severa que está amigada com um militar brasileiro e leva uma vida confortável nas nossas terras tropicais. Mas toda a travessia da família não será nada fácil, e a chegada no solo brasileiro também não trará muito alívio. A escrita é fluida e rápida, sem se tornar piegas nem ser superficial. Um momen...

DPL: Resenha: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

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Está muito na moda ler distopias. Distopia é o oposto da utopia, ou seja, algo muito longe de uma realidade perfeita. Nas distopias, é comum encontrar governos totalitários, guerras iminentes e uma realidade “distorcida”. É o mundo de cabeça para baixo. Se você pensa que distopia é um conceito novo, está muito enganado. Décadas antes de Suzanne Collins, e companhia, já havia grandes distopias no mundo literário, como “1984”, de George Orwell, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, “O Processo”, de Franz Kafka e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll. Você já deve conhecer algumas das passagens de Alice, provavelmente devido a uma das várias adaptações da história para o cinema. A questão é que não importa a ordem das aventuras de Alice, e nem se elas aconteceram todas no mesmo dia ou em dias separados. O que importa é que um dia a menina Alice seguiu um coelho branco que estava atrasado e encontrou um mundo onde lebres tomam chá com chapeleiros e rainhas do baralho...

Resenha: Doze anos de escravidão, de Solomon Northup

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Até a entrega do Oscar de 2014, eu nunca tinha ouvido falar em Solomon Northup. De fato, o homem de vida extraordinária fez sucesso com a publicação de sua autobiografia, mas passou muitas décadas esquecido pelo público. Voltar a lê-lo é mergulhar em uma das muitas manchas da história da humanidade, é relembrar uma atrocidade que jamais deve ser cometida novamente e é, em especial, se surpreender com o caráter humano a cada página. Solomon Northup era um homem negro, livre, habilidoso e inteligentíssimo. Ele morava perto de Washington com a mulher e três filhos e, uma noite, depois de negociar um trabalho como violinista em um circo itinerante, ele foi enganado por dois homens, que o drogaram, roubaram seus documentos e o venderam como escravo. A partir daí, Solomon viveria as mais cruéis provações por uma dúzia de anos, durante os quais sua liberdade e sua identidade lhe foram tiradas. O vocabulário do livro é esplêndido. Sim, é uma tradução para o português, mas não tenho dúv...

Resenha: Tio Petros e a Conjectura de Goldbach, de Apostolos Doxiadis

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Sendo filha de uma professora de matemática, minha vida sempre esteve envolta em números. Como eu gosto mais de ler do que calcular, vez ou outra minha mãe traz um livro da biblioteca de sua escola cujo tema é matemática e eu inevitavelmente acabo lendo. “Tio Petros e a Conjectura de Goldbach” foi um destes, e em nada lembra as dificuldades das aulas ou os cálculos difíceis: é um romance para os leigos admirarem. Escrito em primeira pessoa por um narrador que nunca se identifica, o livro conta a história do fictício matemático grego Petros Papachristos, que passou toda sua vida tentando demonstrar a conjectura de Goldbach, problema aparentemente simples que enuncia: “Todo número inteiro par maior que 2 pode ser representado como a soma de dois números primos”. Sua trajetória é cercada por excentricidades, surpresas e participações de matemáticos que realmente existiram. Petros era a ovelha negra da família: 100% dedicado aos números, ele não é tão bem-sucedido quanto seu...

Resenha: As aventuras científicas de Sherlock Holmes, de Colin Bruce

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Alguns personagens literários se tornam tão famosos que vão além da vida que lhes é dada por seus criadores originais. Um exemplo disto é James Bond. Sim, o agente 007 surgiu nos livros do escritor Ian Fleming, e se tornou mundialmente famoso no cinema, meio que criou novas histórias, além das escritas por Fleming, conforme eram feitos mais e mais filmes de Bond. Outro exemplo é Sherlock Holmes. O personagem acabou tão famoso que um dia seu criador, Sir Arthur Conan Doyle, ficou cansado da fama da criatura e matou Sherlock. Os fãs ficaram indignados e Arthur voltou atrás na história seguinte... E a prova da durabilidade de Sherlock é que novos escritores usam-no como protagonista de seus livros (com a devida autorização dos herdeiros de Conan Doyle, claro). Um dos que usaram essa técnica foi Colin Bruce, que decidiu usar o detetive para explicar grandes descobertas científicas. Pensando bem, Sherlock Holmes e a ciência são uma bela combinação. Não seria de se espantar que o brilh...

Resenha: Quincas Borba, de Machado de Assis

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Como assim, começar uma série para valorizar o autor nacional logo com Machado de Assis? Machado é clássico, seu nome vende sem precisar de marketing. Sim, mas todo escritor e bom leitor precisa conhecer quem veio antes dele, analisar as obras e, se possível, aprender algumas coisinhas (mas jamais copiá-las em sua própria ficção). Por isso Machado é referência: ele foi um grande inovador na literatura brasileira e mundial.  Machado de Assis, considerado o melhor escritor brasileiro de todos os tempos, é também meu escritor favorito. Por isso fiquei animada para ler “Quincas Borba. Por várias páginas, pensei que este livro não era tão bom quanto aos outros do autor, como “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou mesmo “Esaú e Jacó” (resenha deste em breve). Mas novamente o velho mestre me surpreendeu. O cão Quincas Borba não é exatamente o protagonista, mas sem ele a história não existiria (por isso o cãozinho de pelúcia na foto). O cão recebeu o mesmo nome do don...