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Mostrando postagens com o rótulo leia mulheres

Papel & Película: Como Água para Chocolate, o livro, o filme, a série

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  *A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito* Tita de la Garza ama Pedro Múzquiz e é correspondida. O que os impede de ficarem juntos é a tradição: como filha mais nova, Tita tem o dever de permanecer solteira e ficar ao lado da mãe, Elena, até a morte. Pedro então se casa com a irmã de Tita, Rosaura, mas o amor não arrefece. Essa história de amor proibido em meio à Revolução Mexicana (1910-1917) foi cozida na mente de Laura Esquivel e primeiro servida em 1989, fazendo de cara imenso sucesso. O livro Incluído na lista do jornal El País dos 100 Melhores Romances em Língua Espanhola do Século XX, o livro é composto de doze capítulos, cada um representando uma receita e um mês do ano - mas não se engane, não é uma história que se desenrola durante apenas um ano, mas sim em ...

Bicentenário de Maria Firmina dos Reis: lendo o conto “A Escrava”

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Em 11 de outubro de 2025, são celebrados os 200 anos de nascimento de Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira - como você pode conferir AQUI . Em homenagem à data, li o conto “A Escrava”, e aqui vão minhas impressões. “A Escrava” foi publicado em jornal em 1887 e trata-se de um relato de uma senhora abolicionista contando um causo. Numa tarde de agosto, passou por ela, correndo, uma escrava (sic, hoje usamos o termo “escravizada”). A ela seguiu-se um feitor, curiosamente de pele parda e que classificava a fugitiva como “douda”, e o filho da mulher, Gabriel. A narradora-personagem despista o feitor e acolhe a mulher, que lhe conta sobre sua trajetória no cativeiro, de menina livre a pequena escravizada, passando pelo traumático rapto de seus filhos gêmeos ainda na infância para serem vendidos. O conto foi publicado no auge do movimento abolicionista, mas na província do Maranhão, cuja elite era majoritariamente branca e arraigada na suposta necessidade de se manter ...

Resenha: Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

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  Ah, a infância! Época de brincadeiras mil, sem preocupações nem deveres além dos da escola. Que saudade tantos têm dela, como Casimiro de Abreu com seus oito anos e a aurora da vida. Mas a infância também pode ser sombria e dramática. Uma infância assim, com problemas que inclusive arrepiariam gente grande, nos é apresentada em “Ciranda de Pedra”, da grande escritora Lygia Fagundes Telles, como prelúdio para uma idade adulta não menos conturbada. Lygia salpica informações para que nós juntemos as pecinhas da narrativa, que é sobre Virgínia, filha do casal separado Laura e Natércio, irmã mais nova de Bruna e Otávia, amiga de Conrado e Letícia, enteada de Daniel, a quem chama de “tio”. Sempre comparada com as irmãs pela governanta Frau Herta, empregada do pai, Virgínia tem uma revelação terrível no final da primeira parte e começa a segunda como aluna-exceção – afinal, era filha de pais separados, um escândalo! – da escola de freirinhas, na qual sua “preferida” era Irmã Mônica....

Resenha: Fundo, de Beatriz Aquino

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  Um livro que é como um mergulho: assim Beatriz Aquino, minha amiga, definiu seu “Fundo”, desejando na dedicatória “bom mergulho”. Ora, para todo bom leitor, não é todo livro um mergulho? Mas este é diferente: além de todas as metáforas aquáticas, tem uma narrativa que envolve e surpreende, como o próprio mar. Durante um bom tempo de leitura, convenci-me de que cada capítulo poderia ser lido como um conto, tão vastas eram as narrativas e vivências das mulheres protagonistas. Esqueci-me de que somos múltiplas, e podemos abrigar em nós vivências também múltiplas, mesmo sendo um indivíduo apenas. Foi depois de mais de quarenta páginas que me dei conta de que era uma narrativa não-linear cronologicamente, mas sobre uma só pessoa: a protagonista Ana.  Violentada pelo pai na infância e mandada para São Paulo logo depois, não para fugir do escândalo mas para fugir da fome, Ana seguiu a cartilha da vida: formou-se, passou um tempo estudando fora, flertou, namorou, casou, adquir...

Resenha: Assassinato no Campo de Golfe, de Agatha Christie

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  Chegamos ao segundo livro protagonizado pelo detetive belga Hercule Poirot, a mais notável criação da Dama do Crime Agatha Christie. Em vinte e oito capítulos, o investigador cuja cabeça tem um curioso formato de ovo se vê às voltas com dois crimes e usa seu privilegiado cérebro para chegar a mais uma solução surpreendente. Hercule Poirot começa sua carreira internacional com o chamado de um homem rico que, tendo vivido e feito negócios por muitos anos na América do Sul, encontra-se agora morando na França. O pedido de socorro, de perigo iminente, é enviado para Poirot e ele atravessa o Canal da Mancha, mas é tarde demais: quando ele chega, Monsieur Renauld já havia sido assassinado. Quinze dias antes de ser assassinado, o Monsieur Renauld havia mudado seu testamento, deixando toda sua fortuna para a esposa, Madame Renauld, que foi amordaçada e amarrada na cama na noite do crime por dois homens mascarados que falavam alguma coisa sobre um “segredo”. Naquela tarde, o Monsieur ...

Resenha: A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

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  Existem livros que entram na nossa vida e ficam na nossa lista de “próximas leituras” por muito tempo, até surgir a oportunidade perfeita. “A Redoma de Vidro” foi um desses livros. Ouvi falar através de amigas - que inclusive o têm como livros que mudaram a vida delas - e sempre quis lê-lo. O grande dia chegou, quando foi escolhido como livro do mês do clube de leitura Feito por Elas. Li-o, apreciei muito a prosa única de Sylvia Plath, e terminei-o num dia sugestivo: no segundo aniversário de minha tentativa de suicídio. Conhecemos Esther Greenwood quando ela está fazendo um estágio numa revista em Nova York. Nesta primeira metade do livro, suas interações com as outras meninas que moram no mesmo hotel que ela são o ponto alto da narrativa. É pelos olhos de Esther que conhecemos Doreen, Betsy, Hilda e outras que são só citadas. Mesmo em um meio glamouroso e excitante, Esther já demonstra certa apatia, bastante presente, por exemplo, em sua birra com filmes em Technicolor, que er...

Resenha: A Cachorra, de Pilar Quintana

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  Mãe de planta. Mãe de pet. Mãe de gente. Mãe de anjo. A maternidade - e a maternagem, esse termo que não tínhamos o costume de usar - mudou muito nos últimos tempos. “Ser mãe” vai muito além de ter filhos biológicos, e cada vez mais passa a ser visto como algo associado a dar afeto - muitas vezes com segundas intenções, até mesmo no discurso de que mulheres precisam ter filhos para serem cuidadas por eles na velhice.   Por vermos agora tantas facetas diferentes da maternidade, surgem, nas mídias diversas, várias obras sobre maternidade. Uma delas é o romance “A Cachorra”. Damaris é uma mulher pobre que vive numa vila litorânea perto da região de Cáli, na Colômbia - um bocado distante do point turístico litorâneo do país, Cartagena. Ela é casada há mais de 20 anos com Rogelio, e se ressente muito por nunca ter conseguido engravidar. Como “profissão”, toma conta, aparentemente sem receber salário, de uma casa de veraneio cujos donos não aparecem há décadas para passar as féri...

Resenha: A Pediatra, de Andréa del Fuego

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O que leva uma pessoa a decidir fazer o curso de medicina? A resposta romântica da maioria é “poder salvar vidas e cuidar das pessoas”. Alguns são mais práticos e chocam ao confessar que escolheram a carreira pelo dinheiro. Na minha experiência, muitos escolhem a medicina por status. Mas a protagonista do livro “A Pediatra” não se enquadra em nenhuma destas respostas. Ela fez medicina, acredite ou não, por comodidade. Cecília é pediatra e neonatologista (quem cuida de recém-nascidos) porque seu pai também é médico, e inclusive atende no mesmo prédio que ela, no mesmo andar. Mas o pai é endocrinologista pediatra e lida com as temidas “mães-pâncreas”: as mães de crianças com diabetes, dependentes de insulina. Cecília não quer ter nada a ver com crianças com doenças crônicas, muito menos com suas mães. Por isso, ela atende os pequenos pacientes até por volta dos dois anos de idade, e depois disso “dá um perdido” para que eles procurem outro pediatra. A vida calma e regrada de Cecília ...

Resenha: Vá, Coloque um Vigia, de Harper Lee

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  Durante muito tempo eu tive receio de ler “Vá, Coloque Um Vigia”, porque “O Sol é Para Todos” é um dos meus livros favoritos. Publicado em 2015, apenas um ano antes da morte da autora Harper Lee, “Vá, Coloque Um Vigia” prometia desconstruir algumas coisas - uma reputação em especial, para ser mais exata - que haviam sido construídas em “O Sol é Para Todos” e reforçadas na versão cinematográfica de 1962. Mas foi o Clube do Livro Feito por Elas que me incentivou a enfrentar meu medo e finalmente conferir o livro, e assim eu não me decepcionei sozinha. Em “Vá, Coloque um Vigia”, encontramos Scout Finch, ou melhor, Jean Louise Finch, como uma moça de 26 anos que, vivendo em Nova York, vai passar um tempo na sua cidade natal de Maycomb. Seu irmão Jem herdou o coração fraco da mãe deles e sucumbiu muito jovem, e seu grande amigo Dill mora em outra cidade. Restam, de rostos conhecidos em Maycomb, Atticus Finch, a tia Alexandra e o tio Jack - a boa e velha Calpúrnia ainda está pelos ar...

Resenha: Água Viva, de Clarice Lispector

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Ela é campeã nas citações de redes sociais, sejam elas verdadeiras ou não. Clarice Lispector é musa, é referência, é exemplo, mas nem sempre é uma escritora fácil de ser lida. Algumas de suas obras não são para qualquer um, confundem o leitor incauto, impressionam quem entrou de gaiato na leitura, mas recompensam quem segue firme, reflete sobre o que está no livro e o que está além do livro, e podem mudar o rumo de uma vida. Água Viva é um destes livros. Eu tenho a estranha convicção de que, quanto mais difícil é escrever a sinopse de um livro ou filme sem explicar muito ou dar spoilers, melhor é a obra. Gosto de coisas que me surpreendam pela complexidade, que não podem ser resumidas em uma só frase ou parágrafo. Água Viva é impossível de se resumir, não exatamente pela história convoluta, e sim pela ausência de história. Clarice gostava de fluxos de consciência, e Água Viva é um imenso fluxo de consciência. Não há divisão em capítulos, apenas em parágrafos. É um monólogo ...

Mulheres Escritoras #1: Maria Firmina dos Reis

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Você deve conhecer Clarice Lispector e Cecília Meirelles. A primeira foi uma grande romancista e contista russo-brasileira, a segunda escreveu lindos poemas. Seriam elas as mulheres pioneiras na literatura tupiniquim? NÃO! Esta é a história de Maria Firmina dos Reis, a primeira poetisa e romancista do Brasil. Para ser um escritor de projeção no Brasil no século XIX (e até hoje, infelizmente), era necessário ser homem, branco, com alguma renda, ter estudado na Europa e viver no eixo Rio – São Paulo. Maria Firmina dos Reis era mulher, negra, professora primária e maranhense.  Busto de Maria Firmina dos Reis Nascida em 1825, foi criada pela avó e foi autodidata. Desde jovem publicou diversos contos, crônicas e poesias na imprensa de São Luís. Seu primeiro romance, “Úrsula”, foi entretanto publicado sob o pseudônimo “uma maranhense”. Maria escondeu assim seu nome, mas não seu gênero. Escreve um romance abolicionista, e o primeiro romance afro-brasileiro da história. Ao ...

Resenha: Morada das Lembranças, de Daniella Bauer

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Até pouco tempo, eu nunca havia participado de um book tour. Mas o primeiro book tour a gente nunca esquece, e este teve tudo para ser, realmente, inesquecível: muito bem organizado e com um livro maravilhoso para ser lido e resenhado por quinze mãos da blogosfera. A história de “Morada das Lembranças” é contada em primeira pessoa, misturando tons de reflexão, recordação e confissão. A nossa protagonista é uma menina que, aos sete anos de idade, após o assassinato do pai, precisa sair da Rússia revolucionária às pressas, acompanhada da mãe e do irmão bebê. Uma experiência sem dúvida traumática. O destino do trio é o Rio de Janeiro, onde mora a avó da protagonista, uma senhora severa que está amigada com um militar brasileiro e leva uma vida confortável nas nossas terras tropicais. Mas toda a travessia da família não será nada fácil, e a chegada no solo brasileiro também não trará muito alívio. A escrita é fluida e rápida, sem se tornar piegas nem ser superficial. Um momen...