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Mostrando postagens com o rótulo resenha

Resenha: Neca, romance em bajubá, de Amara Moira

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  “Só sei que nada sei” - Sócrates E quanto mais eu sei, sei que não sei de nada. Essa foi a sensação ao ler “Neca, romance em bajubá”. É o tipo de livro que não procuraria por vontade própria, mas que foi escolhido no novo clube de leitura LGBTQ+ no qual entrei. Esses tipos de iniciativas são excelentes para ampliar nossos horizontes literários, e com certeza foi o que aconteceu comigo durante esta leitura. Confesso que, quando li o subtítulo “romance em bajubá”, do alto da minha ignorância pensei se tratar do lugar onde a história de passava: de preferência, uma paradisíaca praia da Bahia. Estava totalmente errada, mas existe sim exuberância no bajubá, afinal, trata-se de um dialeto da população LGBTQIA+. Além deste dialeto, a protagonista usa palavras do francês e do italiano, devido à sua passagem por estes países, incluindo algumas aportuguesadas para casar com a pronúncia. Escolhi deixar a leitura fluir, sem ficar indo ao dicionário toda vez que encontrava uma palavra ou ...

O fim de um ciclo

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  No final do ano passado, estive conversando com uma agência de publicidade com foco no mercado literário para recrutar influenciadores literários para uma leitura coletiva de meu romance “Anos de Chumbo”. Quando o publiquei, no aparentemente longínquo ano de 2015, tentei “na raça” ir atrás de blogueiros oferecendo uma cópia do livro em troca de uma resenha. Quando recebia “nãos” - e mesmo nos comentários dos posts originados pelos raros “sim” - a ladainha era a mesma: “deve ser um livro muito pesado”. Sim, é uma narrativa séria, como deve ser encarado nossa história recente. E então veio um golpe para os sonhadores. Não digo que meu livro, single-handedly, poderia ter sido capaz de frear o autoritarismo e o negacionismo. Mas digo que não considerei as “viúvas da ditadura” nos primeiros anos de divulgação do romance. Mas em 2024 não podia mais ignorá-las. Tive receio em encontrar algum influencer de extrema-direita - porque surpresa! Alguns deles sabem ler - que desmereceria...

Resenha: Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

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  Ah, a infância! Época de brincadeiras mil, sem preocupações nem deveres além dos da escola. Que saudade tantos têm dela, como Casimiro de Abreu com seus oito anos e a aurora da vida. Mas a infância também pode ser sombria e dramática. Uma infância assim, com problemas que inclusive arrepiariam gente grande, nos é apresentada em “Ciranda de Pedra”, da grande escritora Lygia Fagundes Telles, como prelúdio para uma idade adulta não menos conturbada. Lygia salpica informações para que nós juntemos as pecinhas da narrativa, que é sobre Virgínia, filha do casal separado Laura e Natércio, irmã mais nova de Bruna e Otávia, amiga de Conrado e Letícia, enteada de Daniel, a quem chama de “tio”. Sempre comparada com as irmãs pela governanta Frau Herta, empregada do pai, Virgínia tem uma revelação terrível no final da primeira parte e começa a segunda como aluna-exceção – afinal, era filha de pais separados, um escândalo! – da escola de freirinhas, na qual sua “preferida” era Irmã Mônica....

Resenha: A contadora de filmes, de Hernán Rivera Letelier

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Cinema é tudo para mim. Foi o que me deu forças para continuar no momento mais difícil da minha vida. É o meu combustível diário, minha paixão, minha profissão*. Sem cinema tenho sintomas de abstinência, e a vida perde um pouco o colorido. Por isso eu leio tudo sobre cinema. Por isso eu li “A contadora de filmes” há muitos anos. Por isso reli o livro para refrescar a memória e me preparar para a estreia da adaptação cinematográfica. Maria Margarita é a mais nova entre cinco irmãos, todos os outros homens. O pai sofrera um acidente de trabalho nas minas de sal, deixando-o paralisado da cintura para baixo. A mãe abandonara a família quando a desgraça se abateu. O dinheiro era contado, para os bens essenciais e para o bem mais essencial para a mente: uma ida semanal ao cinema. Houve um concurso entre os filhos: quem contasse melhor o filme visto, com mais riqueza de detalhes, ganharia o direito - o dever! Um dever deveras prazeroso - de ir semanalmente ao cinema e voltar para casa para ...

Resenha: Fundo, de Beatriz Aquino

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  Um livro que é como um mergulho: assim Beatriz Aquino, minha amiga, definiu seu “Fundo”, desejando na dedicatória “bom mergulho”. Ora, para todo bom leitor, não é todo livro um mergulho? Mas este é diferente: além de todas as metáforas aquáticas, tem uma narrativa que envolve e surpreende, como o próprio mar. Durante um bom tempo de leitura, convenci-me de que cada capítulo poderia ser lido como um conto, tão vastas eram as narrativas e vivências das mulheres protagonistas. Esqueci-me de que somos múltiplas, e podemos abrigar em nós vivências também múltiplas, mesmo sendo um indivíduo apenas. Foi depois de mais de quarenta páginas que me dei conta de que era uma narrativa não-linear cronologicamente, mas sobre uma só pessoa: a protagonista Ana.  Violentada pelo pai na infância e mandada para São Paulo logo depois, não para fugir do escândalo mas para fugir da fome, Ana seguiu a cartilha da vida: formou-se, passou um tempo estudando fora, flertou, namorou, casou, adquir...

Resenha: Rubaiyat, de Omar Khayyam

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  Virava e mexia, eu entrava no escritório do meu avô e encontrava o livro “Rubaiyat” de Omar Khayyam em cima da escrivaninha. Depois que meu avô se foi, resolvi lê-lo para entender melhor quem foi aquele homem, minha única figura paterna. Ler os livros favoritos de uma pessoa pode ser uma revelação. “Rubaiyat” é um livro de poemas curtos escritos ao longo de vários anos no século XII. O nome da compilação foi dado pelo tradutor inglês Edwards Fitzgerald e significa “quarteto”. Fernando Pessoa foi bastante influenciado pela tradução de Fitzgerald, tanto é que sua edição pessoal, com notas de próprio punho, permanece em exposição na Casa Fernando Pessoa em Lisboa. No Brasil, em 1966 Manuel Bandeira publicou suas traduções para as quadras. Os poemas versam sobretudo acerca da finitude da vida, da necessidade de aproveitar os amores e o vinho antes que seja tarde demais. O tom lúgubre de muitos destes versos se refletia perfeitamente em meu avô, pessoa super-preocupada e taciturna...

Resenha: Assassinato no Campo de Golfe, de Agatha Christie

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  Chegamos ao segundo livro protagonizado pelo detetive belga Hercule Poirot, a mais notável criação da Dama do Crime Agatha Christie. Em vinte e oito capítulos, o investigador cuja cabeça tem um curioso formato de ovo se vê às voltas com dois crimes e usa seu privilegiado cérebro para chegar a mais uma solução surpreendente. Hercule Poirot começa sua carreira internacional com o chamado de um homem rico que, tendo vivido e feito negócios por muitos anos na América do Sul, encontra-se agora morando na França. O pedido de socorro, de perigo iminente, é enviado para Poirot e ele atravessa o Canal da Mancha, mas é tarde demais: quando ele chega, Monsieur Renauld já havia sido assassinado. Quinze dias antes de ser assassinado, o Monsieur Renauld havia mudado seu testamento, deixando toda sua fortuna para a esposa, Madame Renauld, que foi amordaçada e amarrada na cama na noite do crime por dois homens mascarados que falavam alguma coisa sobre um “segredo”. Naquela tarde, o Monsieur ...

Resenha Mirim: O Matador de Passarinhos, de Luiz Galdino

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  * Este é um texto escrito por uma criança. Tenha isso em mente na leitura! * Tavinho estava no seu quarto, olhando através da janela, tão distraído ficou que nem percebeu Zezé entrando em seu quarto, só percebeu quando o amigo abriu a gaveta e começou a bagunçar suas coisas. Ele sentiu raiva, sentiu vontade até de fechar a gaveta nos dedos dele, mas não podia. Primeiro: sua mãe era comadre da mãe de Tavinho e segundo: ele era irmão de Lucimar, com quem ele vivia a sonhar de olhos abertos. Quando Zezé viu os estilingues de Tavinho logo disse: - Tá louco! Esses estilingues não servem para nada, não matam nem um pássaro que pousar no seu nariz! Dizendo isso, tirou um estilingue do bolso, que diz ter trocado com o Lico. Tirando a “peça” pendurou-a no seu pescoço, deixando bem à mostra, e para desanimar ainda mais Tavinho o convidou para caçar pássaros. Sem muita vontade ele foi e quase por milagre matou uma rolinha. De noite ficou com remorso, pois havia matado um pás...

Resenha Mirim: Danico Pé de Vento, de Isabel Vieira

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  * Este é um texto escrito por uma criança. Tenha isso em mente na leitura! *                Daniel entrou na sala e começaram as risadas:             - Hein! Nanico! Aqui é a quinta A, o jardim e o pré são no outro prédio!               Ele suspirou, à procura de alguma carteira vazia. Finalmente encontrou uma na sexta fileira. Uma garota que sentava ao lado tentou “puxar um papo”.             - Oi, meu nome é Alícia. Qual é o seu? Para quem é essa carteira?             - Essa carteira é para minha irmã, Milena. Eu me chamo Daniel e...             - Danico, Danico! – uma voz tristonha interrompeu, era a irmã dele – querem nos separar. Me colocaram na ...

Resenha: O Inimigo Secreto, de Agatha Christie

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  Em minha casa, apreciamos Hercule Poirot. Minha mãe tem uma pequena porém robusta coleção de livros com aquele que é, talvez com alguma sombra de dúvida, o personagem mais famoso criado pela escritora britânica Agatha Christie. Já havia lido, da coleção, “Assassinato no Expresso do Oriente” e “A Morte no Nilo”, leituras que fiz para comparar com as adaptações cinematográficas destas obras. Quando o grupo de leitura do site Feito por Elas criou um subgrupo para leitura cronológica dos livros de Christie, eu soube que não podia ficar de fora. Como tenho uma lista enorme de outros livros que quero ler, decidi me juntar ao grupo de leituras só quando fossem discutidas obras que tenho em livro físico. E isso aconteceu relativamente cedo, com “O Inimigo Secreto”. Com ele descobri muito sobre Christie, e também conheci os Jovens Aventureiros, Tommy e Tuppence. Fiquei surpresa ao descobrir que Agatha Christie publicou seu primeiro livro apenas aos 30 anos. O hábito da escrita em sua ...

Resenha: Depois que as luzes se apagam, de Tadeu Rodrigues

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  Pode uma história feita de clichês ser completamente original? Se estivermos falando do laureado romance de Tadeu Rodrigues, “Depois que as luzes se apagam”, a resposta será um sonoro SIM. Partindo de clichês nada baratos, ele conta a amizade entre um ancião e uma criança doente que nos arrebata, nos emociona, nos faz sonhar e por fim nos surpreende. Estevão tem oito anos. Nosso narrador, oitenta. O que une um ao outro é a finitude: Estevão é um menino doente, nosso narrador, apesar de aparentemente são, também está no fim da vida. Estevão é morador do terceiro andar do Edifício Fabuloso, onde nosso narrador também mora, num quartinho próprio para abrigar o porteiro do prédio. Em vez de ir à escola, Estevão perambula pelo prédio, até chegar ao quartinho do porteiro. Lá, nasce uma amizade nada improvável. Neste edifício de nome imponente a amizade se desenvolve na portaria e no saguão, culminando com a montagem de um circo de papelão. Com uma persona de palhaço que é “um tan...

Resenha: coletânea de contos “Cor Não Tem Gênero”

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  Desta vez, uma coisa diferente: uma resenha de uma coletânea que reuniu oito autores para contar histórias LGBTQIA+. Em cada parágrafo, algumas impressões sobre os oito textos que li para encontrar inspiração para um conto no qual estou trabalhando. O primeiro conto, “Tudo que não precisa ser dito”, foi escrito por Luiz Gouveia. Nele, um estudante de uma arcaica escola só para meninos localizada - presumo pelos nomes dos personagens - na Inglaterra ou outro país de língua inglesa se apaixona por um novo colega de classe. Não é a primeira paixão dele por outro menino - sendo que, numa ocasião anterior, seu sentimento foi considerado doença. O conto se passa numa época em que homossexualidade era considerada crime, daí a relação dos meninos estar duplamente em perigo. Tudo parece muito comum no conto, até que chegamos ao clímax: aí há uma divisão, com dois finais possíveis, e cabe ao leitor escolher o final para o amor proibido entre Sebastian e Augustus. “Camisetas, cores e co...

Resenha: A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

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  Existem livros que entram na nossa vida e ficam na nossa lista de “próximas leituras” por muito tempo, até surgir a oportunidade perfeita. “A Redoma de Vidro” foi um desses livros. Ouvi falar através de amigas - que inclusive o têm como livros que mudaram a vida delas - e sempre quis lê-lo. O grande dia chegou, quando foi escolhido como livro do mês do clube de leitura Feito por Elas. Li-o, apreciei muito a prosa única de Sylvia Plath, e terminei-o num dia sugestivo: no segundo aniversário de minha tentativa de suicídio. Conhecemos Esther Greenwood quando ela está fazendo um estágio numa revista em Nova York. Nesta primeira metade do livro, suas interações com as outras meninas que moram no mesmo hotel que ela são o ponto alto da narrativa. É pelos olhos de Esther que conhecemos Doreen, Betsy, Hilda e outras que são só citadas. Mesmo em um meio glamouroso e excitante, Esther já demonstra certa apatia, bastante presente, por exemplo, em sua birra com filmes em Technicolor, que er...