Resenha: Entre Dois Amores, de Mary Westmacott (Agatha Christie)
Este é um livro de Agatha Christie, mas nele
não há mistério. Há morte, para falar a verdade: no primeiro capítulo já
sabemos que nosso herói morreu na guerra. E nosso herói é Vernon Deyre, que foi
do ódio injustificável à música na infância para uma obsessão pelo assunto na
juventude.
Esse
é um livro sobre as mulheres da vida de Vernon, mas não apenas seus “dois
amores”, Nell e Jane. É também sobre a prima Joe e, em escala bem menor, a
benfeitora Freda. Mas estes não são amores. Por exemplo, no primeiro encontro
com a prima Josephine, ambos “Olharam-se desconfiados, como fazem as crianças e
os cães”.
Depois
de ir por acaso e a contragosto a um concerto, Vernon se torna obcecado pela
música, mas diz que a música moderna (a história se passa na década de 1910)
era falha e incompleta - imagina se ele conhecesse a música de hoje! Disposto a
dominar vários instrumentos, ele também decide escrever uma espécie de ópera
com base em uma história que ouvira na infância.
Outra
opinião que muda radicalmente em Vernon da infância à juventude diz respeito a
Nell Vereker. Ele, que a considerava uma chata quando criança, se apaixona por
ela no reencontro anos depois.
Apesar
de a narrativa da infância de Vernon ser muito boa - Christie pareceu entender
perfeitamente como funciona a mente de uma criança - é na idade adulta que
acontecem as maiores mudanças, como a supracitada obsessão pela música. Além de
Vernon, na juventude acompanhamos Joe, adepta de causas perdidas, e o amigo
Sebastian, bem-sucedido homem de negócios judeu que conhece toda a solidão do
topo.
Muito
do livro foi inspirado na própria vida de Agatha Christie, por exemplo: ela
cresceu como criança solitária (seus irmãos eram bem mais velhos) numa grande
propriedade, a exemplo de Abbots Puissants, e teve de abandoná-la quando seu
pai morreu - mas, assim como Vernon, sempre esteve ligada à propriedade e lutou
para mantê-la como patrimônio de família. E, assim como Nell, foi enfermeira
voluntária em hospitais na Primeira Guerra Mundial.
O
título em português é fácil de explicar: Vernon fica dividido entre dois
amores, as mulheres de sua vida: Nell e Jane. Mas pode se referir a outras duas
paixões: Abbots Puissants e a música. Em ambos os casos, Vernon precisará
escolher só um amor para viver. O título original é “Giant’s Bread”, tirado de
um poema de John Keats sobre o processo criativo e a ambição de um artista como
Vernon. Considerando que The Giant é uma obra mencionada no prólogo, podemos
considerar o livro como um todo como o “pão” para que a obra existisse.
Tudo
parecia caminhar para um final quando eu estava apenas em 80% do livro. Ali tem
lugar não um, mas dois plot twists sensacionais e abre-se mais um
supercapítulo, que no caso é chamado de “livro”: ao todo são cinco livros
dentro de “Entre Dois Amores”. E a dica essencial: depois de acabar o livro,
releia o prólogo.
Agatha
Christie não estava em território conhecido, mas mostrou destreza também no
melodrama. “Entre Dois Amores” é a prova de que um bom escritor é bom em
qualquer gênero.
Frases favoritas: “Talvez, agindo-se com coragem, as coisas sempre se ajeitassem. Talvez fosse esse o segredo da vida.”
“As
coisas que morrem permanecem, e as coisas que permanecem perecem.”
O veredicto:
5 minions!
EXCELENTE!



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