Papel & Película: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector a Suzana Amaral
*A coluna Papel & Película trata de
literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias
para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o
finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*
Macabéa era a moça que acordava e se situava
assim: “sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola”. É um livro rico em
passagens que valem ser destacadas, mas o que eu gostaria de chamar atenção foi
que li uma edição de 1980 e a capa trazia essa lista de digníssimos autores
publicados pela casa editorial José Olympio Editora. Quantos deles já não foram
esquecidos pelo cânone?
O começo do filme traz, além de todos os
prêmios recebidos pela produção no Festival de Cinema de Brasília, créditos
simples com nomes em branco correndo por um fundo azul. Ouvimos a ladainha de
curiosidades do Rádio Relógio que Macabéa (a brilhante estreante Marcélia
Cartaxo) acompanhava com afinco e interesse. Vemos Macabéa no trabalho, onde o
chefe a descreve como “feiíssima”, e no quarto de pensão que divide com outras
três moças, que a consideram estranhíssima. É muito superlativo para quem
parece ser insignificante.
Numa tarde no parque Macabéa conhece Olímpico
(José Dumont), metalúrgico, lá da Paraíba, imitador de passarinhos e
mão-de-vaca. Ele anseia em ser deputado porque quer ser chamado de doutor - mas
acha que obter conhecimento é coisa de “fresco” (com o perdão da palavra, que
não pode ser dita em frente de moça direita como Macabéa).
Por volta de uma hora de projeção surge ela, a
já gigante da arte brasileira Fernanda Montenegro como a cartomante Madama
Carlota (assim nomeada no livro, no filme ela não recebe nome). A primeira
cliente é Glória (Tamara Taxman), colega de trabalho da nossa datilógrafa
favorita. Aqui, uma diferença gritante do livro: é a cartomante que aconselha
Glória a tirar Olímpico de Macabéa, enquanto no livro é uma ideia da própria
cabeça da sirigaita. Por outro lado, o encontro de Macabéa com a cartomante é
retirado quase ipsis litteris do
livro de Clarice.
Há muitos momentos verdadeiramente hilários no
filme. Como quando Macabéa parece encontrar um homem com quem flertar, e no fim
descobre que ele não estava olhando para ela: trata-se de um cego. Ou a reação
de Olímpico à tentativa de Macabéa de cantar “Una Furtiva Lágrima”. Ou como ela
acha que é viajar de avião. Ou nesta cena muito compartilhada nas redes sociais:
Glória, falando sobre os cinco abortos que fez,
diz uma verdade inconveniente: “é que nem tirar dente, só que mais caro”. De
fato, um aborto nas primeiras semanas de gestação, com segurança e limpeza,
traz menos risco que a extração de um dente! É a hipocrisia que complica.
De certa maneira, Clarice não abandonou seu
fluxo de consciência neste livro, que foi seu penúltimo romance. O roteiro
ficou a cargo de Suzana Amaral e Alfredo Oroz. Este foi o longa-metragem de
estreia de Suzana na direção, e a cineasta tem uma trajetória que parece coisa
de cinema. Ingressou no curso de Cinema da USP aos 37 anos, depois de ter nove
filhos. Formada e pós-graduada em Nova York, filmou dezenas de documentários de
curta-metragem para a TV Cultura, até obter sucesso no Festival de Berlim com
este filme, que continua ganhando prêmios: em 2016 foi eleito um dos 100
melhores filmes brasileiros de todos os tempos eleitos pela Associação
Brasileira de Críticos de Cinema. Em votação também com diversos críticos, “A
Hora da Estrela” foi escolhido o melhor filme dirigido por uma mulher em toda a
História do cinema brasileiro, conforme publicado no site Coletivo Crítico em 2025.
Na Literatura, “A Hora da Estrela” é clássico
absoluto. E na Sétima Arte também. Só no cinema dançamos com Macabéa o Danúbio
Azul no dia que ela faltou ao trabalho dizendo que ia tirar um dente, mas só
queria mesmo um dia de folga. A moça que queria ser artista de cinema conseguiu.



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