Papel & Película: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector a Suzana Amaral

 

*A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*


À primeira vista, parecia um livro impossível de se adaptar para o cinema. E isso principalmente pela existência de um narrador não onisciente, mas onipresente, denominado Rodrigo S. M. A presença do narrador foi uma das surpresas que tive lendo o livro, afinal, ele faz algo que nem pode ser chamado de digressão - pois ainda não havia começado a narrar - no início do livro. A outra surpresa foi descobrir como é fina “A Hora da Estrela”: pouco mais de cem páginas! Mas, nelas, um mundo inteiro.

Macabéa era a moça que acordava e se situava assim: “sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola”. É um livro rico em passagens que valem ser destacadas, mas o que eu gostaria de chamar atenção foi que li uma edição de 1980 e a capa trazia essa lista de digníssimos autores publicados pela casa editorial José Olympio Editora. Quantos deles já não foram esquecidos pelo cânone?

O começo do filme traz, além de todos os prêmios recebidos pela produção no Festival de Cinema de Brasília, créditos simples com nomes em branco correndo por um fundo azul. Ouvimos a ladainha de curiosidades do Rádio Relógio que Macabéa (a brilhante estreante Marcélia Cartaxo) acompanhava com afinco e interesse. Vemos Macabéa no trabalho, onde o chefe a descreve como “feiíssima”, e no quarto de pensão que divide com outras três moças, que a consideram estranhíssima. É muito superlativo para quem parece ser insignificante.

Numa tarde no parque Macabéa conhece Olímpico (José Dumont), metalúrgico, lá da Paraíba, imitador de passarinhos e mão-de-vaca. Ele anseia em ser deputado porque quer ser chamado de doutor - mas acha que obter conhecimento é coisa de “fresco” (com o perdão da palavra, que não pode ser dita em frente de moça direita como Macabéa).

Por volta de uma hora de projeção surge ela, a já gigante da arte brasileira Fernanda Montenegro como a cartomante Madama Carlota (assim nomeada no livro, no filme ela não recebe nome). A primeira cliente é Glória (Tamara Taxman), colega de trabalho da nossa datilógrafa favorita. Aqui, uma diferença gritante do livro: é a cartomante que aconselha Glória a tirar Olímpico de Macabéa, enquanto no livro é uma ideia da própria cabeça da sirigaita. Por outro lado, o encontro de Macabéa com a cartomante é retirado quase ipsis litteris do livro de Clarice.

Há muitos momentos verdadeiramente hilários no filme. Como quando Macabéa parece encontrar um homem com quem flertar, e no fim descobre que ele não estava olhando para ela: trata-se de um cego. Ou a reação de Olímpico à tentativa de Macabéa de cantar “Una Furtiva Lágrima”. Ou como ela acha que é viajar de avião. Ou nesta cena muito compartilhada nas redes sociais:

Glória, falando sobre os cinco abortos que fez, diz uma verdade inconveniente: “é que nem tirar dente, só que mais caro”. De fato, um aborto nas primeiras semanas de gestação, com segurança e limpeza, traz menos risco que a extração de um dente! É a hipocrisia que complica.

De certa maneira, Clarice não abandonou seu fluxo de consciência neste livro, que foi seu penúltimo romance. O roteiro ficou a cargo de Suzana Amaral e Alfredo Oroz. Este foi o longa-metragem de estreia de Suzana na direção, e a cineasta tem uma trajetória que parece coisa de cinema. Ingressou no curso de Cinema da USP aos 37 anos, depois de ter nove filhos. Formada e pós-graduada em Nova York, filmou dezenas de documentários de curta-metragem para a TV Cultura, até obter sucesso no Festival de Berlim com este filme, que continua ganhando prêmios: em 2016 foi eleito um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos eleitos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Em votação também com diversos críticos, “A Hora da Estrela” foi escolhido o melhor filme dirigido por uma mulher em toda a História do cinema brasileiro, conforme publicado no site Coletivo Crítico em 2025.

Na Literatura, “A Hora da Estrela” é clássico absoluto. E na Sétima Arte também. Só no cinema dançamos com Macabéa o Danúbio Azul no dia que ela faltou ao trabalho dizendo que ia tirar um dente, mas só queria mesmo um dia de folga. A moça que queria ser artista de cinema conseguiu.

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