Papel & Película: O Mistério dos Sete Relógios, de Agatha Christie à Netflix

 *A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual e também filmes sobre livros. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*


Publicado em 1929, “O Mistério dos Sete Relógios” não é a melhor obra de Agatha Christie, como pude constatar lendo o livro. Falta a presença magnética e carismática de um Poirot ou uma Miss Marple. Assim como outros romances de espionagem da autora, não chega à altura de seus romances de mistério ou “whodunit”. Não foi uma leitura que me marcou, embora Christie mais uma vez tenha me surpreendido.

Fui também sem esperar muito da minissérie, vista de antemão e muito criticada pela minha mãe, rata de Netflix  e também expert em IA, pois foi ela que montou a foto que abre este post. Mas fui de peito e mente abertos. E me decepcionei.

Em 1925, na propriedade de Chimneys, uma pegadinha dá errado - muito errado. A propriedade é de Lady Caterham (Helena Bonham Carter) e sua filha Eileen Brent, apelidada de Bundle (Mia McKenna-Bruce), mas a casa está alugada para Lord Coote (Mark Lewis Jones) e a esposa Lady Coote (Dorothy Atkinson). Os muitos amigos em comum das duas famílias estavam em uma festa no local na noite anterior à tragédia. Entre eles, uma das minhas personagens favoritas do livro, Meia-Soquete - chamada assim na versão do livro que li, da Harper Collins, e na série chamada sem tradução de Socks - que fala que tudo e todos são “sutis” - traduzido para “sorrateiros” na série.

A pegadinha em questão consistia em esconder oito despertadores no quarto do dorminhoco Gerry Wade (Corey Mylchreest). Quando os ditos cujos começam a tocar sem cessar, Bundle vai ver o que aconteceu e encontra Gerry morto e sete relógios enfileirados em cima da lareira. Com uma nova morte dias depois, entra em cena o superintendente Battle (Martin Freeman), que aconselha Bundle a não se meter com a investigação. Como toda boa mocinha de histórias de mistério, ela não segue o conselho.

Vamos às mudanças na adaptação para as telinhas. No livro, Bundle tem apenas o pai, Lord Caterham, enquanto na série só lhe restou a mãe, Lady Caterham, e a escolha só pode ser justificada pelo desejo de ter Helena Bonham Carter no papel, com a excentricidade que ela sempre injeta em suas personagens. Outra troca notável foi o desaparecimento de Herr Eberhard e no lugar a inserção do camaronês Dr Matip como o inventor da fórmula cobiçada. Isso pode ser visto como uma reparação histórica ao racismo demonstrado por Agatha Christie em alguns de seus livros - sendo o exemplo mais comentado o título “O Caso dos Dez Negrinhos”, mudado em versões recentes para “E não sobrou nenhum”. Na minissérie não tem nenhuma Condessa Radzky. E o clímax tem muitas modificações, tantas que configurariam spoilers, mas podemos dizer que serviram para aumentar o protagonismo de Bundle.

O produtor executivo e roteirista Chris Chibnall, também autor de um best-seller de suspense, já era grande fã de Christie quando lhe foi proposto o projeto da minissérie - tanto que outra série dele, “Broadchurch”, é uma óbvia homenagem ao mistério inoculado por Agatha em suas obras. Relendo o livro original, ficou encantado com Bundle e se perguntou por que ela não é uma personagem mais conhecida no mundo literário como um todo. Bundle era a essência da história, e ela de fato não foi só mantida, mas também aumentada em termos de importância. Ele fala mais sobre seu processo criativo e a gênese dos personagens que vemos na Netflix em entrevista para o site oficial de Agatha Christie, disponível em inglês AQUI.

No geral, “Os Sete Relógios” é uma boa minissérie de suspense, mas não uma boa adaptação de Agatha Christie. Como minissérie, é perfeita para maratonar, mas funcionaria bem também como um filme longo ao estilo da franquia “Knives Out”. Seria melhor, então, que cada obra fosse analisada separadamente, o que faz desta resenha que você está lendo irrelevante. Mas antes de me despedir, deixo o veredicto: essa não é a melhor forma de adaptar e honrar o legado da Rainha do Crime.

P.S.: Fui informada da existência de uma adaptação bem melhor, um filme de 1981. Ele está completo no YouTube e entrou para minha lista de próximos filmes a assistir.

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