Papel & Película: A Empregada (2025)

 

*A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*

ESSE ARTIGO TEM SPOILERS


Um livro que é best-seller, quando adaptado para o cinema, dá origem a um sucesso de bilheteria? Nem sempre. Mas foi o que aconteceu com “A Empregada”, especialmente no Brasil, onde o filme foi um sucesso de bilheteria fora do comum.

A jovem Millie (Sydney Sweeney) se candidata a um emprego para cuidar da mansão da família Winchester, que inclui a mãe Nina (Amanda Seyfried), o pai Andrew (Brandon Sklenar) e a filha Cece (Indiana Elle). Parece uma família perfeita, de comercial de margarina. Mas não é.

O comportamento de Nina acende vários sinais de alerta na cabeça do público, e deveria fazer o mesmo para Millie. Ela, entretanto, não está podendo recusar trabalho, afinal, é a condição principal para que ela seja mantida em liberdade condicional. Some a esses sinais de alerta a aproximação de Andrew, que gera uma intimidade que, olhando de fora, só nos faz pensar: “isso não vai prestar”. E de fato as coisas saem do controle, mas não do jeito que imaginamos.

O livro foi escrito pela queridinha do momento, Freida McFadden, pseudônimo de uma neurocirurgiã que parece ter mais de 24 horas em seus dias para conseguir trabalhar e escrever em velocidade máxima, afinal, em menos de 13 anos ela publicou trinta livros!

No geral, o filme foi bem fiel ao livro. Algumas mudanças foram o tamanho do papel do jardineiro Enzo (interpretado pelo ator italiano Michele Morrone), que é bem maior no livro, enquanto a mãe de Andrew, Evelyn (Elizabeth Perkins), tem mais destaque no filme.

Um tema importante jogado no filme, condenado mas nunca nomeado, é o gaslighting. Essa técnica de tortura psicológica tem como objetivo desacreditar o que a vítima diz, levando as pessoas e até a própria vítima a crer que se trata do testemunho de uma pessoa louca. O termo veio do filme de 1944 “À Meia-Luz” - cujo título original é “Gaslight” - no qual Ingrid Bergman, que ganhou seu primeiro Oscar por este papel, é levada à loucura pelo marido e a metáfora visual para a perda de sua sanidade é o apagar das luzes.

Assistíamos ao filme, eu e minha mãe, e ela comentou algo que eu já havia notado: Nina só se veste de branco, combinando com a casa imaculada na maioria de seus ambientes. Branco é a cor da pureza, e de fato combina com a personagem, que contudo veste roupas de outras cores fora da casa. Ela é reluzente e lúcida, apesar de não parecer à primeira vista.

“A Empregada” arrecadou mais de trezentos milhões de dólares na bilheteria global, somando mais de três milhões de espectadores só no Brasil. Um deles foi o diretor multipremiado Kleber Mendonça Filho que, tentando achar razões para o sucesso do filme no país, destacou seu enredo novelesco e a proximidade de temas como a vida de uma empregada, ainda que em casa de milionário, e a violência contra a mulher no cotidiano de tantos brasileiros.

O cineasta Paul Feig já mostrou destreza em dirigir elencos femininos e aqui mais uma vez triunfa, pois são as personagens femininas as mais interessantes, principalmente quando se unem. Ele também é mestre de filmes com plot twists, algumas vezes absurdos como na por enquanto dupla de filmes “Um Pequeno Favor”. Há planos para uma sequência de “A Empregada”, baseado novamente em livro de Freida. Mais um sucesso vem aí.

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