Resenha: Sobre Minha Filha, de Kim Hye-jin

 


Machado de Assis nos ensinou que nem todo narrador é confiável. Kim Hye-jin, em “Sobre Minha Filha”, mostra que nem todo narrador é simpático.

Ao longo de 140 páginas acompanhamos os pensamentos de uma mulher, cuidadora de idosos e mãe de uma moça de 30 e poucos anos cujo apelido é Green. Green é homossexual e acaba de se mudar de volta para a casa da mãe com a namorada, apelidada de Rain. A mãe, entretanto, não aceita a sexualidade da filha e deseja mais do que tudo que essa “fase” passe e a filha possa levar uma vida “normal”.

Para completar o desgosto da narradora, Green tem um emprego que não agrada à matriarca: é professora horista numa universidade. Pensa que acabou? Não: Green está lutando contra uma injustiça em seu local de trabalho - a demissão de um funcionário homossexual - e a narradora não suporta ver a filha que criou com tanto esmero militando pelo que é certo!



A narradora cuida de apenas uma idosa numa clínica de repouso: Zen, que já foi dinâmica, viajou, estudou e trabalhou no exterior. Hoje, está praticamente abandonada e sofrendo com a economia porca da casa de repouso. São medidas como cortar a fralda geriátrica ao meio para que ela dure mais que causam abominação na narradora, momentos em que vemos seu lado mais humano.

Outra personagem até mais antipática é a mulher do professor universitário, descrita assim mesmo pela narradora. Nela, não vemos qualidades redentoras: também cuidadora de idosos, ela é mesquinha e não se importa com aqueles sob seus cuidados.

Embora não exista oficialmente na Coreia do Sul o direito a casamento entre pessoas do mesmo gênero, estes casais foram contabilizados no censo de 2025 no país. Entretanto, de acordo com o site Equaldex, homossexuais não podem adotar uma criança e a discriminação no trabalho, como contada no livro, varia de região para região. A opinião pública pende para o conservadorismo, embora haja projetos de lei que mirem na igualdade.

A certa altura a narradora diz que “eu nasci, cresci e envelheci neste país, onde ignorar e guardar o silêncio a respeito do que acontece ao redor é considerado virtude e polidez”. Que bom que existem autoras como Kim Hye-jin para quebrar esse silêncio.

 

O veredicto: 4 minions!



ÓTIMO!

 

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