Papel & Película: Pedro Páramo, de Juan Rulfo à Netflix

 

*A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*


Primeiro, uma confissão: “Pedro Páramo” foi uma leitura difícil, realmente desafiadora. Até pegar o jeito e me acostumar com as mudanças de narrador e os vaivéns entre passado e presente, eu estava como o meme do Cascão com o pai do Cebolinha:

Mas no fim tudo se ajeita. E melhor ainda se houver uma obra audiovisual para complementar a leitura. Porque cinema e literatura podem sim ser complementares.

Acompanhamos a chegada de um homem, que depois descobrimos ser Juan Preciado (Tenoch Huerta Mejía), à cidade fantasma de Comala em busca de seu pai, Pedro Páramo (Manuel García-Rulfo), cumprindo a promessa que fez para a mãe no leito de morte. Ele é recepcionado primeiro por Eduviges (Dolores Heredia), depois por Damiana (Mayra Batalla), por fim por Dorotea (Giovanna Zacarias). E vai se delineando a vida e a morte de Pedro Páramo.

Homem de muitas mulheres, Pedro Páramo reconheceu apenas um de seus filhos, Miguel (Santiago Colores). Tudo que o rapazote fazia de errado, Pedro estava lá para acobertar. Muitas mulheres, mas um só casamento: com a única mulher que ele amou, a paixão de infância Susana San Juan (Ilse Salas). Um amor também malfadado.

O filme da Netflix se destaca por ser o primeiro longa dirigido pelo aclamado diretor de fotografia Rodrigo Prieto, indicado a quatro Oscars. Sua parceria com o diretor Martin Scorsese merece ser destacada, pois deu origem a filmes belíssimos como “Silêncio” (2016), “O Irlandês” (2019) e “Assassinos da Lua das Flores” (2023). Curiosidade: em “Pedro Páramo” a assistente de direção é Maria Fernanda Prieto, filha de Rodrigo.

A trilha sonora original é assinada por Gustavo Santaolalla, ganhador de dois Oscars seguidos de Melhor Trilha Sonora. Apesar de assinar também a trilha de “Diários de Motocicleta” (2004), a música do filme que ganhou o Oscar foi composta por Jorge Drexler.

Antes mesmo de conhecer o Realismo Mágico - ou Fantástico - com a leitura de “Cem Anos de Solidão” e “Pedro Páramo”, tive minha iniciação no cinema. Ela aconteceu com o pouco conhecido mas maravilhoso filme “Milagre em Milão”, do grande diretor italiano Vittorio De Sica, que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 1951.

Quando começou a projeção de “Pedro Páramo”, percebi que compartilhava com Rodrigo Prieto as ideias sobre o local em que se passa a história. Também imaginei, conforme lia, uma Comala abandonada, cheia de pó e pedregulhos. Não imaginei o protagonista de bigode, mas ele lhe caiu como uma luva. E alguns momentos do roteiro, de dúvida e estranhamento, ficaram mais claros graças à adaptação para os cinemas, ou melhor, o streaming. O filme pode não ser obra-prima, mas funciona para esclarecer alguns pontos obscuros do livro.

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