As meninas que inventavam
Era uma vez uma menina chamada Raquel. Mas era
uma vez que Raquel era eu.
Explico: enquanto crítica e curadora de cinema,
alguns dos meus filmes favoritos são filmes sobre filmes - metalinguísticos,
para usar o termo técnico. Ora, como escritora, só poderia melhorar se
consumisse livros sobre livros. E foi assim, como uma adulta que escreve agora
livros infantis, que pela primeira vez li “A Bolsa Amarela”. E de cara me
identifiquei com Raquel.
Raquel não tem idade nem etnia especificadas.
Mas Raquel tem três vontades muito bem guardadas dentro de uma bolsa amarela.
Vontade de ser menino, essa eu nunca tive. Vontade de crescer, na infância tive
como tudo mundo tem. Mas a vontade de escrever, ah, essa eu tenho todo dia!
Gosto de pensar que Lygia Bojunga, autora de “A
Bolsa Amarela”, não conseguiu esconder sua vontade de escrever. Primeiro foi
atriz, mas a vocação falou mais alto. Vocação que a levou a ser chamada de
herdeira de Monteiro Lobato. Eu li obras do criador do Sítio do Pica-pau
Amarelo na infância, e lembro-me com nitidez da capa rosa-escuro da edição de
“A Chave do Tamanho” que peguei na biblioteca da escola.
Como Raquel, fui inventando tudo o que minha
imaginação alcançava desde criança, tanto é que meu primeiro livro é uma
seleção de “contos, crônicas e poemas dos 7 aos 17”. Se tivesse tido contato
com a história de Raquel, talvez fosse mais cuidadosa com minha imaginação.
Como diz o Galo Rei, uma vez inventados os personagens existem para sempre. E
para sempre é muito tempo.
Mas se tem uma vontade que eu tenho, é de
escrever rimas. Desde criança, vivia rimando palavras e fazendo as pessoas ao
meu redor sorrir. Continuei com essa sina, de ser poetisa e fazer sorrir, e
assim lancei o livro que é meu maior sucesso, inesperadamente: "Bicharada
Rimada".
Teve uma época em que eu parei de escrever
literatura. Minha vontade ficou pequenina, tão minúscula que seria difícil
achá-la dentro da bolsa amarela. Foi durante a pandemia, quando o modo
sobrevivência foi ativado e o jeito era viver um dia de cada vez.
A certa altura de “A Bolsa Amarela”, um homem
diz assim para a guarda-chuva: “Às vezes a gente quer muito uma coisa e então
acha que vai querer a vida toda. Mas aí o tempo passa. E o tempo é o tipo do
sujeito que adora mudar tudo.” O tempo passou. Eu não tenho mais sete anos, nem
dezessete. Mas essa vontade de inventar histórias não passa. Ainda bem!


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