Papel & Película: Quinze Dias (2026)

 

*A coluna Papel & Película trata de literatura e cinema através de artigos sobre adaptações de obras literárias para o audiovisual. Escrevi a coluna semanalmente durante alguns anos para o finado site Leia Literatura. Este é um artigo inédito*


Felipe é claramente gay e gosta de rapazes claramente gays para que eles possam ser claramente gays juntos - nas próprias palavras dele. Sua sexualidade não é problema para ele. O que o incomoda e o faz ser vítima de bullying é ser um adolescente gordo. E por causa disso também abandonou um hábito que amava quando era criança: ir à piscina do seu prédio.

Tudo muda para Felipe (Miguel Lallo) com a chegada de Caio (Diego Lira), o vizinho, que vai passar quinze dias na casa de Felipe porque seus pais estarão viajando. No filme é construída muita animosidade nas primeiras interações dos dois personagens, talvez para configurar um plot “enemies to lovers”. No livro eles não se odiavam, só pareciam não falar a mesma língua.

No filme, a mãe artista de Felipe, Rita (Débora Falabella), vai a uma ONG ensinar a dançar, enquanto no livro ela dá aula de pintura para crianças. A mudança permite que Felipe e Caio tenham sua primeira dança juntos e isso leva a mais momentos compartilhados.

Caio era amigo de Felipe na infância, mas deixou de ser quando Felipe parou de frequentar a piscina do prédio. Com a convivência forçada por quinze dias, há mais que uma reaproximação: a descoberta de que Caio também é gay faz acender uma luzinha na cabeça de Felipe… eles podem ser claramente gays juntos!

Mais mudanças na adaptação. O momento de enfrentamento dos bullies, que no livro acontece na festa aonde vão Felipe, Caio, Beca e Melissa, no filme não acontece com palavras, mas com empurrões na saída do tatuador, conforme passa na rua a Carreta Furacão. Aleatório, eu sei. Além disso, o primeiro beijo, que acontece no cinema no livro, no filme se passa no terraço do prédio dos pombinhos. E, claro, a festa, que é o clímax do filme, e seus desdobramentos não existem no livro.

A direção de arte é um destaque, começando pelos créditos iniciais com o mesmo esquema de cores da capa do livro. Depois vem um apartamento de Rita e Felipe multicolorido, ricamente decorado e bastante aconchegante. E tem também a passagem dos dias: se no livro cada dia era um novo capítulo, no filme muita criatividade foi necessária para inserir o dia que se iniciava em imagens diversas, como o diploma da psicóloga Olívia, um pôster na porta do quarto de Felipe e imãs de letras na geladeira.

Na adaptação, alguns passos atrás foram dados - como a não-inclusão do trecho com o livro “O Mágico de Oz”, inspirado pela avó de Felipe - e outros passos à frente também - como Caio se assumir para seus pais, o que não ocorre no livro. Como dito nos créditos finais, o filme é “baseado na obra literária Quinze Dias” e diversas mudanças foram feitas, mas fica a critério de quem consumiu ambas as obras dizer se foram positivas ou negativas. Na minha opinião, ambas podem ser apreciadas em separado, cada uma na sua arte, como grandes libelos de aceitação e, claro, amor.

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