“Eu leio até bula de remédio” - e por que isso é um problema
Não
importa o quanto você lê, mas sim o que lê.
Eu não participei da Bienal de São Paulo em 2026,
mas fiquei sabendo das polêmicas do evento. E elas reverberaram em mim.
Teve a
leitora que disse que Anne Frank se vitimizava muito em seu diário.
Inconcebível. Será que ela experimentou se colocar no lugar de uma criança que
precisa viver escondida com a família? Literatura não deveria exercitar a
empatia? Quem lê não deveria ser mais tolerante para com o outro, afinal, já
experimentou outras tantas realidades? Ler o Diário de Anne Frank sem se
colocar no lugar dela é simplesmente um desperdício de tempo lendo sem se
envolver ou prestar atenção. É querer só riscar mais um livro da lista, acabar
logo uma leitura para atingir uma meta ou divulgar nas redes. Lamentável.
Na
Bienal, teve o tarado - não existe outro termo para a situação - com máscara
Ghost Face que invadiu - novamente, não há outra palavra - o estande de uma
editora de Dark Romance - romance com temas sombrios, como traumas - e
“interagiu” com leitoras, algumas menores de idade. Além de iniciar um debate
sobre segurança na Bienal, o ocorrido nos alerta para a importância de se
respeitar a faixa etária ideal para cada leitura. Uma menina que lê algo
inadequado pode fantasiar com romances impossíveis e acabar se enredando em
relacionamentos abusivos.
Vocês
se lembram da Bienal do Rio em 2019 que tentou censurar um livro LGBTQ e ele
foi um dos mais vendidos? O caso aqui não repercutiu tanto, mas parte da
ilustração da capa de um livro queer da editora NewPop foi censurada por uma
tarja de cor parda!
E teve
o vídeo de alguém que perguntou para os frequentadores se eles sabiam citar
autores negros e muitos não souberam responder.
No post
sobre o ocorrido no Jornal Nota, do qual eu faço parte mas não tive nada a ver
com esse conteúdo, muitos disseram que a polêmica era vazia. Alguém disse que
não vê cor do autor na hora de escolher um livro. Ser adepto do
“colorblindness” - isto é, dizer (fingir!) que não vê cor, raça ou etnia - não
destrói automaticamente o racismo estrutural. Toda seleção de leitura é uma
escolha que deveria ser feita de maneira consciente, mesmo aquelas que vão com
a modinha ou o comportamento de rebanho. Uns escolhem pela capa, outros pela
sinopse, mas escolher pelo autor é corroborar com apagamentos ou fazer sua
parte pela diversidade.
Enquanto
isso, no Skoob, rede social de livros, encontramos barbaridades como alguém que
escreveu numa resenha que a personagem era “envejoza”. Isso partindo de quem
deveria gostar de ler e por isso deveria também escrever bem! De certa maneira,
a plataformização das leituras criou um clima de competição, de “quem lê mais
em menos tempo”. Antigamente, tinha gente que se vangloriava que gostava tanto
de ler que lia até bula de remédio. Hoje quem me disse isso comete um 22 na
urna eletrônica. Hoje, tem gente que lê demais mas absorve o mínimo, ou quase
nada.
Participo
de um grupo de jovens leitoras e até segui algumas das membras no TikTok. O que
mais rola por lá é indicação de mistério, estilo Freida McFadden, e romantasia.
Quarta Asa é o favorito de muitas. Elas leem dezenas de livros todos os anos.
Vou fazer um paralelo com minha realidade: de 2020 para cá, quando entrei na
Associação Brasileira de Críticos de Cinema, vejo mais de 500 filmes por ano,
bem mais de um por dia. E não me lembro da maioria deles. Em compensação,
quando via apenas um filme de vez em quando, me lembrava deles depois de um
tempo com maior facilidade e riqueza de detalhes. A velha máxima é certeira:
qualidade, não quantidade. É ver um Truffaut em vez de maratonar a saga
Crepúsculo. É ler um clássico em vez da distopia do momento. Não importa o
quanto você lê, mas sim o que lê.
A
Bienal do Livro de São Paulo teve recorde de público em 2026. Resta saber que
tipo de público foi este: de leitores atentos ou caçadores de estatísticas.



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